Segurança veicular entra na era do software e da conectividade, aponta seminário da AEA

 

 Marcus Vinicius Aguiar- presidente da AEA

  • Evento realizado em São Paulo (SP), ontem, 12 de maio, reuniu especialistas para debater como software, conectividade e novas políticas públicas estão redefinindo a segurança automotiva.

13/05/2026 – Em um cenário de transformação acelerada da mobilidade, o Seminário de Segurança e Conectividade 2026, promovido pela AEA – Associação Brasileira de Engenharia Automotiva, reuniu especialistas da indústria e da academia para discutir como a digitalização dos veículos, o avanço da inteligência artificial e a evolução regulatória estão redefinindo o conceito de segurança veicular. Sob o tema “Segurança conectada: inovação e responsabilidade na estrada do futuro”, o evento destacou a transição de uma segurança baseada em hardware para uma abordagem integrada, centrada em software, dados e conectividade.


Durante a abertura do Seminário de Segurança e Conectividade 2026, Marcus Vinicius Aguiar reforçou o papel estratégico da conectividade e da segurança na transformação da mobilidade

Na abertura, o presidente da AEA, Marcus Vinicius Aguiar, destacou que, embora os programas industriais do setor automotivo tenham historicamente priorizado eficiência energética e emissões, segurança e conectividade assumem papel igualmente estratégico por seu impacto direto na preservação da vida. O executivo chamou atenção para o cenário brasileiro, que registrou mais de 6 mil mortes e 84 mil feridos, segundo dados da Polícia Rodoviária Federal, em acidentes nas rodovias federais em 2024, reforçando a urgência do avanço tecnológico com foco na redução de acidentes.

A programação do seminário foi estruturada para apresentar os principais avanços em segurança veicular e conectividade, reunindo especialistas para discutir desde a arquitetura dos veículos até os desafios regulatórios e tecnológicos associados à nova mobilidade.

Especialistas da indústria automotiva e da academia participaram do Seminário de Segurança e Conectividade 2026 promovido pela AEA – Associação Brasileira de Engenharia Automotiva, debatendo inovação, conectividade e segurança veicular.


Abrindo a sequência de palestras, Lucas Antunes, da IAV do Brasil, apresentou o conceito de veículos definidos por software (Software Defined Vehicle – SDV) e seus impactos na indústria automotiva. Segundo ele, a transformação ocorre na arquitetura dos veículos, que passam a concentrar funções em computadores de alta performance (HPCs), substituindo estruturas fragmentadas baseadas em múltiplas unidades de controle eletrônico.

Essa nova configuração permite atualizações remotas (OTA) e amplia a integração entre sistemas, viabilizando aplicações como comunicação com o ambiente (V2X) e novas funções de segurança. Ao mesmo tempo, Antunes destacou desafios importantes, como a necessidade de novas competências profissionais, a adaptação dos modelos de negócio e o fortalecimento da cibersegurança para garantir a integridade dos dados e a confiança do usuário.

Na sequência, Gilberto Martins, diretor de Assuntos Regulatórios da Anfavea, trouxe a perspectiva de regulação, destacando o papel do programa Mover como indutor da evolução tecnológica no Brasil. O executivo explicou que o novo ciclo, em vigor desde 2024, amplia o escopo das políticas anteriores ao integrar metas de eficiência energética, descarbonização, com o acréscimo da segurança veicular, com foco crescente em conectividade e automação.

Gilberto Martins, diretor de Assuntos Regulatórios da Anfavea, destacou o papel do Programa Mover como indutor da evolução tecnológica no Brasil

Entre os principais avanços estão a introdução de sistemas de segurança ativa mais avançados, como a frenagem autônoma de emergência, além de novas exigências relacionadas à reciclabilidade, rastreabilidade de componentes e etiquetagem veicular. O programa também incorpora o conceito “poço à roda” na avaliação energética e representa um dos maiores ciclos de investimento da indústria no país, com mais de R$ 140 bilhões previstos.

Leimar Mafort, da Bosch, abordou o papel da inteligência artificial na evolução dos sistemas de assistência à condução e automação veicular. Ele apresentou os diferentes níveis de automação e destacou que grande parte das tecnologias atuais ainda se encontra no nível 2, com assistência ao motorista, embora avanços para níveis mais elevados já estejam em desenvolvimento.

Segundo o executivo, a inteligência artificial já é amplamente utilizada na interpretação de dados de sensores e reconhecimento do ambiente, mas o avanço recente está na adoção de modelos mais complexos, capazes de operar de ponta a ponta, ampliando a capacidade de tomada de decisão dos veículos, com ganhos potenciais em segurança, mas também novos desafios de validação e confiabilidade.

Dando continuidade à programação, Marcelo Azevedo, da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, aprofundou a discussão sobre o uso de dados no setor automotivo ao apresentar aplicações de aprendizado federado. A abordagem permite o desenvolvimento de modelos de inteligência artificial sem a necessidade de centralizar dados sensíveis, mantendo as informações nos próprios veículos e compartilhando apenas os aprendizados gerados.

Segundo o pesquisador, a tecnologia surge como alternativa para viabilizar o uso de dados em larga escala em conformidade com a LGPD, especialmente em um contexto de veículos cada vez mais conectados e geradores de grandes volumes de informação. A iniciativa integra a linha de conectividade veicular do programa Mover, que já conta com dezenas de projetos voltados ao desenvolvimento tecnológico no setor.

 Juan Arias, da General Motors


Inaugurando a programação da tarde, Juan Arias, da General Motors, destacou que a conectividade deixou de ser um diferencial para se tornar a base da transformação da indústria automotiva. Segundo ele, veículos conectados concentram volumes massivos de dados e software, podendo ultrapassar centenas de milhões de linhas de código, e passam a operar como plataformas digitais sobre rodas.

O executivo ressaltou que a conectividade é o elemento estruturante de tendências como eletrificação, direção autônoma e mobilidade compartilhada, além de viabilizar novos modelos de negócio baseados em serviços, assinaturas e monetização de dados. Também destacou o potencial da conectividade para ampliar a segurança, seja por meio de comunicação entre veículos (V2V), integração com infraestrutura urbana ou uso de dados para prevenção de acidentes.


Leandro Manêra, da Unicamp


Ao complementar essa visão, Leandro Manêra, da Unicamp, apresentou aplicações práticas de conectividade veicular em ambientes reais de teste. O projeto “Rota Conectada”, ao qual está envolvido, cria um ecossistema experimental que integra veículos, infraestrutura urbana e redes de comunicação para validar tecnologias como V2X e 5G aplicadas à segurança.

Entre os casos apresentados estão sistemas de prevenção de colisões em cruzamentos e aplicações de comunicação entre veículos para manutenção de distância e velocidade, evidenciando o potencial da conectividade para reduzir acidentes, especialmente aqueles relacionados a falhas humanas, que representam a maioria dos casos.

O ciclo de apresentações foi encerrado com a palestra de Luciana Zaina, da Universidade Federal de São Carlos – UFSCar, quem trouxe a perspectiva do fator humano na segurança veicular, destacando a importância da experiência do usuário (UX) e da interação humano-máquina (HMI) no contexto de veículos cada vez mais tecnológicos.

 Luciana Zaina, da Universidade Federal de São Carlos – UFSCar


A pesquisadora destacou que o aumento da complexidade dos sistemas exige atenção à forma como as informações são transmitidas ao motorista, evitando sobrecarga cognitiva e garantindo que alertas e interfaces contribuam efetivamente para a tomada de decisão. Estudos apresentados indicam que abordagens multissensoriais, como alertas hápticos – que utilizam sensação física (toque/vibração), podem ser mais eficazes do que sinais visuais em determinadas situações de risco.

Encerrando sua apresentação, Luciana Zaina destacou que o avanço das tecnologias de segurança e conectividade exige uma evolução equivalente na forma como essas soluções são concebidas e aplicadas no uso real. Segundo ela, dois fatores tendem a ganhar protagonismo nos próximos anos.

O primeiro é o contexto de uso. Compreender em que condições o motorista está inserido — tipo de via, ambiente urbano, nível de tráfego ou situação de risco — será essencial para adaptar o funcionamento dos sistemas e a forma como as informações são transmitidas ao usuário. Essa personalização, embora ainda desafiadora do ponto de vista técnico, é um passo importante na direção de veículos mais integrados ao conceito de cidades inteligentes.

O segundo ponto é o nível de automação veicular. Zaina destacou que, à medida que os sistemas evoluem de funções de assistência para níveis mais elevados de automação, há uma mudança no foco da experiência do usuário. Se, nos níveis mais baixos, a interação está diretamente ligada à tomada de decisão na condução, nos níveis mais avançados o foco passa a incluir a experiência dentro do veículo, incorporando novos elementos de interação, como sistemas de entretenimento e serviços conectados.

AEA – Associação Brasileira de Engenharia Automotiva - 

https://www.aea.org.br/

Assessoria de imprensa: Texto Final Comunicação
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