O PASSAPORTE NÃO ENTRA EM CAMPO
O que a Copa do Mundo pode nos ensinar sobre pneus, oportunidades e desempenho.
Por Pedro Gobbi
Uma reflexão que começou assistindo Brasil e Marrocos
Quem assistiu Brasil e Marrocos no último sábado talvez não tenha percebido um detalhe curioso.
Depois da partida, fui conferir a escalação marroquina e descobri que, dos onze jogadores que começaram o jogo, apenas um havia nascido em território marroquino.
Havia atletas nascidos no Canadá, Espanha, França, Holanda e Bélgica. Muitos construíram suascarreiras longe do país que hoje representam e, em alguns casos, poderiam até ter defendido outras seleções.
Ainda assim, entraram em campo para enfrentar o Brasil vestindo a camisa de Marrocos.
E, em nenhum momento, a discussão foi sobre isso.
Os comentários giravam em torno da postura da equipe, da organização dentro de campo e da forma como conseguiram competir diante de uma das seleções mais tradicionais do mundo.
Aquilo me fez lembrar de uma situação bastante comum no mercado de pneus.
Quando o assunto é pneu, a primeira pergunta costuma ser a errada
Quem trabalha com transporte provavelmente já ouviu essa pergunta inúmeras vezes:
"Mas ele é importado ou nacional?"
A dúvida é legítima. Durante muito tempo, a origem acabou sendo utilizada como uma espécie de referência rápida para definir qualidade.
Mas será que essa continua sendo a pergunta mais importante?
Hoje convivem no Brasil fabricantes globais com plantas locais, empresas estrangeiras com estruturas consolidadas no país e pneus importados presentes nos mais diferentes segmentos do transporte.
Ao mesmo tempo, muitos dos produtos considerados nacionais pertencem a grupos multinacionais e fazem parte de operações globais.
Por isso, cada vez mais me parece que a origem explica apenas uma parte da história. O desempenho do pneu dentro da operação depende de muitos outros fatores.
O Brasil não é um mercado fácil
Com o tempo, muitas indústrias perceberam que vender para o Brasil era apenas parte do desafio.
Permanecer era outra história.
Poucos países exigem tanto quanto o nosso.
Temos operações urbanas severas, rodovias em diferentes condições de conservação, longas distâncias, excesso de carga, estradas de terra e aplicações capazes de colocar qualquer equipamento à prova diariamente.
Nesse cenário, não basta apenas disponibilizar um produto no mercado. É preciso entender a realidade local, adaptar soluções e evoluir constantemente.
Não por acaso, hoje é comum encontrar pneus produzidos no Vietnã, Índia e Camboja rodando em operações extremamente exigentes no Brasil.
O que os números mostram
Os dados ajudam a entender essa mudança.
Segundo a ANIP, em 2020 os pneus importados representavam aproximadamente 27% das vendas no mercado doméstico, enquanto os produtos fabricados no país respondiam por 73%.
Cinco anos depois, esse cenário se inverteu. Em 2025, os importados passaram a representar 59% das vendas, enquanto os pneus produzidos no Brasil ficaram com 41% da participação.
Seria simplista afirmar que esse movimento aconteceu apenas por preço. Ao mesmo tempo, seria difícil ignorar fatores como competitividade, disponibilidade, ampliação do portfólio e o desempenho que muitos desses produtos passaram a apresentar ao longo do tempo.
O fato é que o transportador brasileiro vem validando essas escolhas diariamente em suas operações.
A operação continua sendo a resposta
No transporte, raramente existe uma solução universal.
A escolha correta depende da aplicação, do tipo de operação, do histórico da frota, da calibragem utilizada, do custo por quilômetro e dos objetivos de cada transportador.
Uma mesma medida de pneu pode apresentar resultados completamente diferentes dependendo da realidade em que está inserida.
O que funciona muito bem em uma operação pode não entregar o mesmo desempenho em outra.
Por isso, reduzir toda essa análise ao país estampado na etiqueta costuma simplificar uma decisão que, na prática, é muito mais complexa.
O que essa comparação nos mostra
Ao observar aquela seleção marroquina em campo, ficou claro que o futebol encontrou uma maneira bastante objetiva de lidar com essa questão.
Durante os 90 minutos, ninguém estava debatendo onde aqueles atletas nasceram. O foco estava na capacidade da equipe de competir, executar sua proposta de jogo e enfrentar uma seleção como a brasileira.
Talvez exista uma reflexão interessante nisso.
Origem, sozinha, dificilmente explica desempenho.
No transporte, muitas vezes ainda insistimos em resumir decisões complexas a respostas simples, quando a própria rotina das operações mostra que a realidade costuma ser mais ampla do que isso.
Porque, seja nos gramados ou nas operações de transporte, o passaporte não entra em campo. O desempenho, sim.
Pedro Gobbi
Especialista no mercado de pneus para transporte. Atuação com foco em distribuição, estratégia comercial e visão de cadeia completa.
Referências
ANIP – Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos. Dados de participação de pneus importados e produzidos no Brasil divulgados em relatórios e comunicados setoriais.
FIFA e imprensa esportiva internacional. Escalação oficial da Seleção de Marrocos na partida contra o
Brasil pela Copa do Mundo de 2026 e informações biográficas dos atletas titulares.
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