Agronegócio avança na produção, mas gargalos de logística e armazenagem limitam eficiência no Brasil

O agronegócio brasileiro vem ampliando a produção, incorporando tecnologia e elevando a produtividade dentro das propriedades rurais. Fora da porteira, entretanto, a infraestrutura ainda não acompanha o ritmo de expansão do setor. Transporte, armazenagem, crédito e acesso a diferentes modais continuam entre os principais desafios para reduzir custos e aumentar a competitividade da produção nacional.


Caminhões carregados com grãos em operação logística, representando os desafios de transporte, escoamento e infraestrutura enfrentados pelo agronegócio brasileiro.


Segundo dados do IBGE, a capacidade útil de armazenagem agrícola no Brasil chegou a 233,8 milhões de toneladas no segundo semestre de 2025, crescimento de 1,1% em relação ao semestre anterior. O dado evidencia o desafio de ampliar a infraestrutura de armazenagem diante do avanço da produção agrícola.



O problema ganha dimensão maior no Centro-Oeste, principal fronteira de produção de grãos do país. A região passou a concentrar parcela expressiva da produção nacional, mas ainda enfrenta limitações de infraestrutura para armazenar, transportar e escoar os volumes produzidos.



Segundo Roberto Rodrigues, professor emérito da FGV Agro, a expansão da agricultura para o interior do país ocorreu de forma mais rápida do que o desenvolvimento da infraestrutura necessária para sustentá-la.


 Roberto Rodrigues, professor emérito da FGV Agro

“A agricultura até 50 anos atrás era costeira, porque as capitais eram costeiras, o consumo era costeiro, a agricultura não havia conquistado o Centro-Oeste”, afirmou Rodrigues. Segundo ele, o processo de ocupação agrícola do interior levou produtores de diferentes regiões para o Centro-Oeste e transformou a geografia da produção brasileira.

 

Infraestrutura não acompanha o crescimento


A expansão da agricultura para o interior modificou profundamente os fluxos de transporte e comercialização de commodities no Brasil. No entanto, ferrovias, rodovias, armazéns e portos não cresceram na mesma velocidade da produção.



O resultado é uma cadeia logística mais pressionada, principalmente durante os períodos de colheita. A insuficiência de capacidade de armazenagem pode obrigar produtores a comercializar a produção em períodos determinados pela disponibilidade de espaço e transporte, e não necessariamente pelas melhores condições de mercado.


Além de elevar os custos depois da porteira, esse cenário reduz a capacidade de planejamento e negociação do produtor.


Para Silvia Fagnani, especialista em diplomacia corporativa, o avanço da infraestrutura precisa ser acompanhado por melhorias regulatórias e institucionais.

Silvia Fagnani, Sócia Fundadora da Allia Diplomacia Corporativa

“A gente precisa trabalhar infraestrutura, segurança jurídica, procedimentos mais adequados para garantir que essa carga possa fluir dentro do Brasil e também fora”, destacou.

 

A questão, portanto, não se limita à construção de novas estruturas físicas. A eficiência do sistema depende também de previsibilidade regulatória, integração entre modais, investimentos contínuos e maior segurança para projetos de longo prazo.


Crédito caro amplia pressão sobre o produtor


A deficiência logística ocorre em um ambiente de elevado custo de capital. Segundo os dados apresentados no debate, mais de 80% do crédito utilizado atualmente pelo agronegócio depende de fontes privadas.


Com juros elevados, investimentos em máquinas, armazenagem, infraestrutura e expansão das propriedades tornam-se mais caros e exigem maior capacidade financeira dos produtores.


O economista Antonio da Luz destaca os efeitos desse cenário sobre os ativos do setor.


Antonio da Luz — Economista


“Nós estamos vendo agora acontecer um movimento de destruição de economia, porque o cara que fez o investimento numa terra e ele está vendendo essa terra para poder pagar dívida, ele está desinvestindo. O sujeito que teve a sua máquina penhorada, ele está sofrendo desinvestimento”, explicou.

 

Na prática, o custo financeiro pode reduzir a capacidade de investimento justamente em um momento em que o setor necessita ampliar sua infraestrutura. Máquinas, armazéns, propriedades e sistemas logísticos demandam capital de longo prazo, enquanto a pressão sobre o fluxo de caixa pode levar empresas e produtores a priorizar a manutenção das operações em detrimento de novos investimentos.


Ferrovias e hidrovias ganham espaço na discussão




A forte dependência do transporte rodoviário é um dos principais desafios logísticos do agronegócio brasileiro. A concentração das cargas nas rodovias aumenta a exposição do setor aos custos de combustível, pedágios, manutenção e disponibilidade de veículos, além de pressionar os principais corredores de escoamento.


Segundo Edeon Vaz Ferreira, diretor executivo da Adecon, cerca de 65% do transporte brasileiro é realizado pelo modal rodoviário. Ele também destaca a diferença entre a extensão da malha ferroviária existente e a efetivamente utilizada para fins econômicos.




“Embora tenhamos no Brasil 30.000 km de ferrovias, nós só temos 12.000 km de ferrovias que são utilizadas economicamente. Então, nós temos que evoluir muito. Nós temos que evoluir na construção de ferrovias e na melhoria dos rios navegáveis”, afirmou.

 

A ampliação da participação ferroviária e hidroviária pode contribuir para diversificar a matriz de transporte e criar corredores mais eficientes para grandes volumes de cargas.


Entre as alternativas discutidas está o avanço da infraestrutura ferroviária em direção a Lucas do Rio Verde (MT), com conexão ao Arco Norte e possibilidade de utilização do porto de Santarém (PA) para o escoamento da produção.


Arco Norte muda a lógica do escoamento


O fortalecimento dos portos do Arco Norte representa uma mudança importante na logística do agronegócio brasileiro. Para produtores do Centro-Oeste, a criação e ampliação de novos corredores pode reduzir a dependência de rotas tradicionais que levam a produção para portos das regiões Sul e Sudeste.




A lógica é aproximar os centros produtores dos corredores de exportação mais adequados às suas localizações geográficas.


Essa transformação, porém, depende da integração entre ferrovias, hidrovias, rodovias, terminais de transbordo e portos. Sem conexão eficiente entre esses elos, o ganho proporcionado por um novo corredor pode ser limitado.


Tecnologia amplia controle sobre a cadeia


A modernização da logística do agronegócio também passa pela digitalização. À medida que o Brasil amplia sua participação no comércio internacional, aumenta a necessidade de disponibilizar informações confiáveis sobre origem, movimentação e características dos produtos.


Nesse contexto, a rastreabilidade ganha relevância. Tecnologias como blockchain podem ser empregadas para registrar informações ao longo da cadeia produtiva, permitindo maior transparência sobre a origem dos produtos e os processos envolvidos.




A demanda não está restrita à logística. Mercados internacionais vêm ampliando a importância de informações relacionadas à sustentabilidade, origem e conformidade dos produtos comercializados.


Para o agronegócio brasileiro, isso significa que competitividade não dependerá apenas da capacidade de produzir mais. Será necessário demonstrar, de forma cada vez mais estruturada, onde, como e em quais condições a produção foi realizada e transportada.


O desafio é transformar produtividade em competitividade


O agronegócio brasileiro conseguiu avançar significativamente dentro da porteira, com ganhos de produtividade, mecanização, tecnologia e expansão da produção. O próximo desafio está em reduzir a distância entre essa eficiência produtiva e a infraestrutura disponível para movimentar a safra.


A combinação de baixa expansão da armazenagem, dependência rodoviária, necessidade de novos corredores ferroviários e hidroviários e custo elevado do crédito cria um cenário em que parte dos ganhos obtidos no campo pode ser consumida pelos custos posteriores à produção.


Nesse sentido, o desafio logístico brasileiro não é apenas transportar uma safra maior. É construir uma estrutura capaz de acompanhar o crescimento do agronegócio, oferecer alternativas de escoamento, ampliar a capacidade de armazenagem e permitir que o produtor tenha maior autonomia para decidir quando e como comercializar sua produção.


A expansão do Arco Norte, o avanço ferroviário, a utilização de hidrovias e a digitalização da cadeia apontam para uma transformação gradual desse cenário. Mas, para que esses movimentos se convertam em ganhos permanentes de competitividade, será necessário combinar investimento, segurança jurídica, crédito de longo prazo e planejamento integrado de infraestrutura.


No campo, o Brasil já aumentou sua capacidade de produzir. O desafio agora é fazer com que estradas, ferrovias, hidrovias, armazéns e portos consigam acompanhar essa evolução.






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