Biodiesel ganha espaço em equipamentos fora de estrada e amplia alternativas para reduzir emissões

Compatibilidade com motores, infraestrutura existente e flexibilidade de abastecimento colocam combustíveis renováveis como opção para operações de alta demanda

Motor JD18 da John Deere Power Systems, desenvolvido para aplicações de alta potência e operações fora de estrada.


Em aplicações fora de estrada, produtividade e disponibilidade dos equipamentos estão diretamente relacionadas ao resultado operacional. Máquinas utilizadas no transporte de cargas pesadas, na agricultura e em operações realizadas em locais remotos precisam entregar potência e torque durante longos ciclos de trabalho, muitas vezes sem acesso a uma infraestrutura centralizada de abastecimento.


Nesse cenário, enquanto diferentes alternativas de energia avançam, os motores de combustão interna continuam desempenhando papel relevante nas aplicações pesadas. Ao mesmo tempo, operadores que buscam reduzir as emissões de carbono encontram nos combustíveis renováveis, como o biodiesel, uma alternativa que pode ser incorporada às operações existentes sem exigir mudanças estruturais significativas.


A proposta é combinar a capacidade energética dos combustíveis líquidos com tecnologias de motores cada vez mais eficientes e preparados para diferentes proporções de combustíveis renováveis.


Densidade de potência é fator decisivo


Em equipamentos fora de estrada, a demanda por potência não está restrita ao desempenho nominal. Máquinas agrícolas, de construção e de outras aplicações pesadas enfrentam variações constantes de carga e precisam responder rapidamente às condições de operação.


Por isso, a densidade de energia dos combustíveis líquidos continua sendo um elemento importante para operações que exigem autonomia e funcionamento contínuo, inclusive em locais distantes de estruturas de abastecimento.


A evolução dos motores acompanha essa necessidade. Plataformas mais recentes são desenvolvidas com foco simultâneo em eficiência, potência e aproveitamento do espaço disponível.


A linha de motores de próxima geração (NGE) da John Deere, por exemplo, utiliza recursos como aprimoramento da combustão, maiores pressões de injeção e otimização do projeto para elevar a densidade de torque em motores de dimensões mais compactas.



Nesse contexto, a utilização de biodiesel pode ocorrer sem comprometer as características fundamentais de potência e torque requeridas pelos equipamentos, desde que sejam observadas as especificações de compatibilidade de cada motor.


Engenharia acompanha evolução dos combustíveis


A ampliação do uso de combustíveis renováveis também exige desenvolvimento específico por parte dos fabricantes. A compatibilidade com diferentes concentrações de biodiesel precisa considerar não apenas a combustão, mas também componentes e sistemas submetidos a milhares de horas de trabalho.


No caso da John Deere, a compatibilidade com biodiesel foi ampliada no ano passado, passando de misturas B20 para B30 em seu portfólio de motores Final Tier 4/Stage IV e Interim Tier 4/Stage III B, segundo informações da empresa.


Motores Tier 3/Stage III A e níveis anteriores, sem filtros de escape, permanecem aprovados para utilização de até B100, enquanto motores Stage V comercializados na União Europeia são aprovados para misturas de até B8.


Motor JD18 da John Deere Power Systems. 


A adequação a diferentes misturas envolve uma série de requisitos de engenharia. Injetores precisam manter a regularidade do fornecimento de combustível, enquanto mangueiras, vedações e juntas devem suportar as características das diferentes formulações.


Motor JD18 da John Deere Power Systems, com arquitetura projetada para elevada densidade de potência, torque e eficiência em aplicações fora de estrada.


Outro ponto é o sistema de lubrificação. A engenharia do motor precisa considerar possíveis efeitos da mistura de combustível sobre o óleo lubrificante e garantir proteção adequada dos componentes internos durante os ciclos de operação.


O objetivo é permitir que a adoção de combustíveis renováveis ocorra sem transformar a mudança de combustível em uma ruptura dos procedimentos tradicionais de manutenção.


Infraestrutura existente reduz barreiras à adoção


Um dos principais argumentos em favor do biodiesel está relacionado à logística. Diferentemente de algumas alternativas energéticas que demandam novas estruturas de abastecimento, o biodiesel pode utilizar grande parte da infraestrutura já empregada pelo diesel convencional.


Tanques de armazenamento, caminhões de transporte e sistemas de abastecimento existentes podem continuar integrados à operação, respeitando as especificações técnicas e de armazenamento aplicáveis ao combustível utilizado.


Essa característica também amplia a flexibilidade dos operadores diante das diferenças de disponibilidade de combustível entre regiões.


Dependendo da homologação do equipamento e das condições locais de fornecimento, a possibilidade de trabalhar com diferentes misturas permite adequar a operação à oferta disponível, incluindo biodiesel, diesel renovável e diesel convencional.


Combustível renovável conecta máquinas e agricultura


O impacto potencial do biodiesel ultrapassa os limites do local onde a máquina está trabalhando. Como parte importante da produção do combustível está associada a matérias-primas agrícolas, sua utilização estabelece uma conexão entre o setor de energia e o agronegócio.


Em determinadas cadeias produtivas, a mesma atividade agrícola pode participar tanto da produção da matéria-prima utilizada na fabricação do combustível quanto do consumo de biodiesel nas próprias máquinas utilizadas no campo.


Essa dinâmica cria uma relação entre produção agrícola, geração de combustível renovável e operação dos equipamentos fora de estrada.


Para mercados submetidos a diferentes padrões de emissões e disponibilidade de combustíveis, a flexibilidade das plataformas de motores também pode representar uma ferramenta de adaptação às características de cada região.


Eficiência e flexibilidade na transição energética


A redução das emissões no segmento fora de estrada passa por diferentes rotas tecnológicas. Enquanto novas soluções de propulsão avançam, a evolução dos motores de combustão interna e a ampliação do uso de combustíveis renováveis representam alternativas que podem ser aplicadas sobre uma infraestrutura já existente.


Nesse processo, o biodiesel aparece como uma possibilidade de menor ruptura operacional, especialmente em aplicações nas quais autonomia, potência, torque e disponibilidade dos equipamentos são fatores determinantes.


A estratégia combina desenvolvimento de motores mais eficientes com maior flexibilidade de combustível, permitindo que operadores avaliem alternativas de redução de emissões sem necessariamente modificar toda a estrutura logística de suas operações.


Mais do que uma substituição imediata de tecnologias, o movimento evidencia uma transição energética baseada na combinação de diferentes soluções. Para equipamentos fora de estrada submetidos a jornadas intensivas, a compatibilidade entre motores, combustíveis renováveis e infraestrutura existente pode ser um dos elementos dessa transformação.


Sobre o autor: Eric Risius é gerente de Marketing de Produto – Motores de Combustão e Combustíveis Renováveis da John Deere Power Systems.



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