Brasil avança nos testes para avaliar diesel com até 25% de biodiesel

Estudos coordenados pelo governo federal vão analisar desempenho, consumo, emissões e durabilidade de veículos pesados antes de uma eventual adoção do B25 no mercado brasileiro



O Brasil deu mais um passo para avaliar a possibilidade de ampliar a participação dos biocombustíveis na matriz energética. Uma rede nacional de pesquisa coordenada pelo Ministério de Minas e Energia (MME), com participação do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e do Instituto Nacional de Tecnologia (INT), está conduzindo estudos para verificar a viabilidade técnica do diesel comercial com até 25% de biodiesel, o chamado B25.



A iniciativa ganhou relevância porque o país atualmente utiliza B15, mistura composta por 15% de biodiesel e 85% de diesel de origem fóssil. O percentual passou a valer nacionalmente em 1º de agosto de 2025, após decisão do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE). A possibilidade de avançar além do B15 está prevista na Lei do Combustível do Futuro (Lei nº 14.993/2024), que estabelece que o CNPE poderá definir percentuais obrigatórios entre 13% e 25%, desde que seja comprovada previamente a viabilidade técnica das misturas superiores a 15%.

Testes vão além do laboratório


Um dos pontos mais importantes do programa é a avaliação do comportamento dos veículos em condições reais de operação. Segundo o INT, os trabalhos envolvem testes laboratoriais e de campo relacionados ao aumento da participação dos biocombustíveis.


No caso dos veículos pesados, os estudos deverão observar parâmetros como consumo de combustível, desempenho do motor, potência, eficiência e durabilidade dos sistemas de alimentação, além do comportamento de filtros e outros componentes que entram em contato diretamente com o combustível.


A estratégia é importante principalmente para o transporte rodoviário, setor no qual caminhões e ônibus permanecem fortemente dependentes do diesel. Antes de uma eventual mudança no combustível comercial, é necessário verificar se concentrações maiores de biodiesel podem afetar componentes, sistemas de injeção, lubrificação, filtros e demais elementos ao longo da operação.


O próprio MME destaca que misturas acima de B15 precisam passar por avaliação de viabilidade técnica. O programa atualmente conduzido pelo governo foi estruturado justamente para produzir os dados necessários à tomada de decisão.


B25 ainda não é o diesel vendido nos postos


É importante destacar que o B25 ainda não é a mistura obrigatória comercial no Brasil. O combustível atualmente regulamentado para venda como diesel B utiliza 15% de biodiesel.


Os estudos representam uma etapa de avaliação técnica e não significam que os veículos brasileiros serão imediatamente abastecidos com B25.


Em julho de 2026, por exemplo, o MME publicou um termo de execução descentralizada para ensaios com B15 e B20, além de testes de emissões utilizando B7, B15, B20 e B25. A iniciativa integra o plano de testes da Fase 1 do Comitê Técnico Permanente do Combustível do Futuro (CTP-CF).


A própria ANP também registra atualmente autorizações específicas para utilização de misturas superiores ao B15 em determinadas aplicações e testes. Em agosto de 2026, por exemplo, há registros de B20 e B25 destinados a ensaios de emissões.

Impacto para caminhões e ônibus


Para o setor de transporte, a possível evolução do B15 para percentuais maiores representa uma mudança que precisa ser analisada com atenção.


Veículos pesados trabalham durante longos períodos, percorrem grandes distâncias e são submetidos a condições severas de carga, temperatura e operação. Por isso, qualquer alteração na composição do combustível precisa considerar não apenas emissões, mas também confiabilidade, manutenção, consumo e vida útil dos componentes.


Esse cuidado é particularmente relevante nos modernos motores a diesel, que utilizam sistemas de injeção de alta pressão e rígidos sistemas de pós-tratamento dos gases de escapamento.


A avaliação em condições reais permite verificar se o aumento do biodiesel mantém o desempenho esperado ao longo da utilização cotidiana e se existe algum impacto sobre componentes do sistema de combustível.


Emissões estão no centro da pesquisa


A redução da dependência de combustíveis fósseis é um dos principais argumentos para o avanço dos biocombustíveis.


O governo brasileiro relaciona a ampliação da utilização de biodiesel à redução da intensidade de carbono dos combustíveis e ao fortalecimento da segurança energética. A estratégia também busca ampliar o uso de matérias-primas nacionais e reduzir a exposição do mercado brasileiro às oscilações internacionais do petróleo.


Entretanto, a definição de um eventual B25 dependerá dos resultados dos testes. A redução de emissões precisa caminhar junto com a garantia de desempenho, confiabilidade e compatibilidade dos veículos e motores.


E35 também está no radar



O programa não se limita ao diesel. A mesma estrutura de pesquisa avalia a possibilidade de utilização de até 35% de etanol na gasolina, formando a mistura E35.


O INT informa que participa de trabalhos envolvendo a avaliação da compatibilidade de materiais e peças automotivas e de ensaios em situações reais de tráfego.


Dessa forma, o governo pretende construir uma base técnica para futuras decisões sobre o aumento da participação dos biocombustíveis nos combustíveis comercializados no país.


O que pode mudar para o transporte?


Se os estudos demonstrarem viabilidade técnica, o B25 poderá representar uma nova etapa na política brasileira de combustíveis, reduzindo proporcionalmente a parcela de diesel fóssil na mistura.


Mas a mudança não deve ser automática. Os resultados dos ensaios terão papel fundamental para determinar se uma concentração de biodiesel superior ao B15 pode ser adotada de forma segura em diferentes tipos de motores e aplicações.


Enquanto isso, o B15 continua sendo a mistura obrigatória vigente no mercado brasileiro, e o B25 permanece em fase de avaliação técnica.


Para caminhoneiros, transportadoras, empresas de ônibus, fabricantes de motores e toda a cadeia automotiva, os resultados desses testes serão estratégicos. Eles poderão indicar até onde o Brasil consegue avançar na substituição parcial do diesel fóssil sem comprometer desempenho, confiabilidade e durabilidade dos veículos pesados.


Fonte: Ministério de Minas e Energia (MME), Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Instituto Nacional de Tecnologia (INT) e Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

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