Marcopolo retoma expansão na Europa com ônibus rodoviários e aposta em rentabilidade, inovação e descarbonização
A Marcopolo está retomando sua presença no mercado europeu, com entrada inicial na Itália e na França, em parceria com a Volvo.
A estratégia considera a demanda por renovação de frotas, o envelhecimento dos ônibus em circulação e novas oportunidades para fabricantes especializados em carrocerias.
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| André Armaganijan, CEO da Marcopolo |
A Marcopolo está retomando sua presença no mercado europeu, com entrada inicial na Itália e na França, em parceria com a Volvo, André Armaganijan, CEO da Marcopolo, detalhou a estratégia de expansão internacional da companhia, o foco em rentabilidade e inovação, os desafios da eletrificação e as oportunidades de crescimento do transporte rodoviário de passageiros no Brasil.
Europa entra no plano de expansão internacional
A retomada das operações europeias ocorre em um cenário de recuperação da movimentação de passageiros no período pós-pandemia e de necessidade de renovação das frotas. Segundo Armaganijan, parte dos fabricantes locais está com carteiras de entrega ocupadas até 2027, abrindo espaço para fornecedores capazes de atender à demanda.
A Marcopolo iniciou sua atuação na Itália e na França por meio de uma parceria com a Volvo, que passou a buscar parceiros para a produção de carrocerias após deixar essa atividade. A companhia também avalia oportunidades em Portugal e na Espanha, mercados nos quais pode fornecer carrocerias para chassis de diferentes fabricantes.
A internacionalização faz parte da estratégia de longo prazo da empresa, que já possui operações na América Latina, na África, na Oceania e na China. A expansão europeia amplia essa presença e abre novas possibilidades para os negócios.
Rentabilidade ganha espaço na estratégia
A melhora dos resultados da Marcopolo está relacionada a um processo de reestruturação iniciado durante a pandemia. A companhia revisou custos, reorganizou operações internacionais, encerrou parcerias no Egito e na Índia e consolidou duas fábricas em uma na Argentina.
De acordo com o CEO, a aproximação das operações internacionais com a matriz brasileira, os investimentos em produtos e processos e o reposicionamento comercial contribuíram para recuperar a rentabilidade.
A empresa também passou a priorizar a geração de resultados, além da participação de mercado. A estratégia incluiu decisões de reposicionamento de produtos e preços, com maior envolvimento das equipes de engenharia na demonstração do valor das soluções oferecidas aos clientes.
Na composição da receita, os ônibus rodoviários representam cerca de 40% do faturamento da Marcopolo. Os modelos urbanos respondem por aproximadamente 25%, enquanto os micro-ônibus representam outros 25%.
Renovação de frotas enfrenta juros elevados
No mercado brasileiro, o envelhecimento da frota representa uma oportunidade para a indústria de ônibus. Segundo Armaganijan, a idade média dos veículos no país, que já chegou a oito anos, está em 11 anos. A substituição dos modelos mais antigos é importante para reduzir custos operacionais e melhorar a eficiência das operações.
Entretanto, o custo do crédito continua sendo um obstáculo. Como grande parte das vendas depende de financiamento, as taxas elevadas limitam a capacidade de investimento dos operadores.
O executivo citou o cenário de 2025, quando os juros chegaram a 15% ao ano, e observou que clientes podem pagar taxas superiores a 20% ao ano para financiar ônibus que frequentemente custam mais de R$ 2 milhões.
Esse cenário leva muitas empresas a renovar apenas o necessário, adiando a substituição de veículos e dificultando a redução da idade média da frota.
Transporte rodoviário ganha espaço com passagens aéreas caras
O aumento das tarifas aéreas também pode favorecer o transporte rodoviário de passageiros. Na avaliação do CEO, o ônibus oferece uma alternativa competitiva ao combinar segurança, conforto e conectividade.
As melhorias nos serviços, incluindo poltronas leito e condições para trabalhar ou descansar durante a viagem, ajudam a atrair passageiros e ampliar a percepção de valor do transporte rodoviário.
Além desse movimento, a necessidade estrutural de renovação das frotas brasileiras sustenta oportunidades para os fabricantes nos próximos anos.
Armaganijan também ressaltou a importância dos investimentos em infraestrutura urbana, especialmente em corredores exclusivos para ônibus. O aumento da velocidade e a redução do tempo de deslocamento podem tornar o transporte público mais atraente, melhorar a mobilidade e contribuir para a descarbonização.
Eletrificação exige financiamento e infraestrutura
A expansão dos ônibus elétricos no Brasil depende da superação de barreiras econômicas e operacionais. Entre os principais desafios estão o custo de aquisição dos veículos e a infraestrutura necessária para recarga.
Segundo o executivo, um ônibus elétrico pode custar até três vezes mais que um modelo a diesel. Além disso, garagens que operam frotas com mais de 50 veículos podem precisar de instalações específicas e subestações de energia, exigindo investimentos adicionais.
A Marcopolo atua nesse mercado tanto com carrocerias para chassis elétricos de fabricantes europeus e chineses quanto com um ônibus elétrico completo, lançado em 2022 e testado em diferentes capitais brasileiras. O modelo já registrou vendas para Porto Alegre e São Paulo.
A companhia destaca a participação da indústria nacional no desenvolvimento da solução. Conforme Armaganijan, praticamente apenas a bateria é importada, enquanto o motor elétrico e os demais componentes são brasileiros. A autonomia informada fica entre 300 e 350 quilômetros, e a vida útil prevista para a bateria é de oito anos.
Ônibus híbrido a etanol amplia alternativas
Outra frente tecnológica destacada pela Marcopolo é o ônibus híbrido a etanol, apresentado como alternativa para reduzir a dependência de infraestrutura externa de recarga.
A tecnologia utiliza um motor gerador movido a etanol para carregar as baterias. A proposta aproveita a experiência brasileira na produção do combustível e pode abrir oportunidades tanto no mercado nacional quanto em outros países produtores.
A solução também reforça a busca por tecnologias de descarbonização adaptadas às condições de infraestrutura e às características de cada mercado.
Na avaliação do CEO, a evolução das baterias é um dos avanços mais relevantes observados na indústria internacional. Ele citou veículos que passaram de autonomias de 300 a 350 quilômetros para faixas de 600 a 650 quilômetros, ampliando as possibilidades de aplicação da propulsão elétrica.
Perspectivas para 2026
A Marcopolo não divulga projeções formais de desempenho. Segundo Armaganijan, informações da associação dos fabricantes apontavam uma pequena redução na produção de ônibus em 2026 em relação a 2025, em um cenário influenciado pelos juros elevados.
O ano eleitoral também exige cautela no planejamento da companhia, que pretende manter o foco em competitividade, inovação, proximidade com os clientes e adequação da capacidade produtiva à demanda.
A estratégia combina o fortalecimento das operações brasileiras com a expansão internacional e o desenvolvimento de tecnologias capazes de atender às diferentes necessidades do transporte de passageiros.
Com a retomada da presença na Europa, a Marcopolo busca ampliar mercados, capturar valor em seus produtos e diversificar as oportunidades de crescimento, mantendo a rentabilidade como um dos principais direcionadores do negócio.
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