O novo ouro verde: como o avanço do etanol de milho transforma a logística da biomassa no MS

Com o avanço das indústrias do biocombustível no Centro-Oeste, a disponibilidade de madeira para bioenergia entra de vez na equação econômica do agronegócio sul-mato-grossense.



Expansão das usinas cria nova dinâmica entre as cadeias de milho, madeira, energia e logística; localização e custo do transporte passam a ser fatores estratégicos



A expansão da produção de etanol de milho no Centro-Oeste está criando uma nova demanda no agronegócio: a biomassa utilizada para geração de energia nas usinas. Em Mato Grosso do Sul, esse movimento ocorre sobre uma base florestal consolidada após mais de uma década de crescimento da silvicultura, cenário que diferencia o Estado de outros polos produtores.


Enquanto as usinas de cana-de-açúcar podem utilizar o bagaço resultante da moagem como fonte de energia, as plantas tradicionais de etanol de milho precisam recorrer a fontes externas de biomassa para alimentar suas caldeiras.




Entre os principais materiais utilizados estão cavacos e resíduos de madeira, especialmente de eucalipto. Dependendo da estrutura e da tecnologia empregada, também podem ser utilizados outros resíduos florestais e agrícolas.


Com a expansão da indústria, a disponibilidade dessa matéria-prima passa a fazer parte da própria equação econômica dos novos projetos.


A questão que começa a ganhar relevância para o produtor sul-mato-grossense é: o Estado terá madeira suficiente para acompanhar o crescimento das usinas de etanol de milho?


Oferta de madeira vai além do volume disponível


Na avaliação do analista de Economia da Aprosoja/MS, Raphael Gimenes, a resposta depende de uma análise que considere não apenas o volume total de florestas plantadas, mas também localização, produtividade, finalidade da madeira, contratos de fornecimento e custos logísticos.




“O crescimento da indústria de etanol de milho amplia a demanda por biomassa e cria uma nova variável econômica para o setor. Não basta olhar apenas para a quantidade de madeira disponível no Estado. É preciso avaliar onde essa madeira está, qual é o seu custo de produção e transporte e quanto desse estoque poderá efetivamente ser destinado à geração de energia”.

 

Um estudo da Consultoria Agro do Itaú BBA estima que a capacidade instalada de etanol de milho no Brasil pode passar de 10,9 bilhões de litros em 2025 para 25,3 bilhões de litros em 2030.


Em Mato Grosso, principal polo da atividade, a projeção indica crescimento de 6,9 bilhões para 11,9 bilhões de litros no mesmo período.


No cenário analisado pelo banco, seriam necessários aproximadamente 383 mil hectares de eucalipto para atender à demanda energética projetada para Mato Grosso em 2030. Atualmente, o Estado possui cerca de 165 mil hectares, o que representa uma diferença potencial de aproximadamente 218 mil hectares.


Mato Grosso do Sul parte de uma base florestal consolidada


Em Mato Grosso do Sul, a expansão da indústria ocorre sobre uma estrutura florestal formada principalmente pela cadeia de celulose.


Dados utilizados pela Aprosoja/MS, por meio do projeto SIGA-MS, apontam 1,985 milhão de hectares de eucalipto na safra 2025/2026, área que vem crescendo nos últimos anos.


A concentração da indústria de celulose nas regiões de Três Lagoas e Ribas do Rio Pardo contribuiu para a formação de uma cadeia que envolve produção florestal, viveiros, colheita, transporte e fornecedores especializados.


“Mato Grosso do Sul possui uma estrutura florestal que reduz o desafio inicial de abastecimento, mas isso não significa que a oferta seja ilimitada. A expansão das usinas pode aumentar a competição pela biomassa e, principalmente, alterar o preço do insumo em determinadas regiões”.

 

A existência de madeira no Estado, portanto, não significa que todas as usinas terão acesso ao insumo nas mesmas condições.


Logística pode definir custo da biomassa


O transporte representa uma parcela importante do custo da biomassa. Dessa forma, a distância entre a floresta e a indústria pode determinar a viabilidade econômica do fornecimento.


O fator ganha importância à medida que novos projetos são instalados fora dos tradicionais polos florestais.


“Em biomassa, a localização é fundamental. Uma floresta pode estar disponível no Estado, mas, se estiver distante da usina, o custo do transporte pode reduzir ou até eliminar a vantagem econômica desse fornecimento”, explica o analista.

 

A avaliação indica que municípios próximos aos corredores florestais e industriais podem apresentar uma dinâmica diferente daquela observada em regiões mais distantes.


Por isso, o acompanhamento da formação dos preços da madeira por microrregião tende a ganhar relevância para produtores, investidores e empresas que planejam novos projetos industriais.


Novas usinas ampliam mercado para o milho




Para o produtor de milho, a expansão da indústria também representa uma mudança na dinâmica de comercialização.


A instalação de novas plantas cria compradores próximos às regiões produtoras e amplia a capacidade de transformação do cereal dentro do próprio Estado.


Em Mato Grosso do Sul, a Inpasa já opera unidades em Dourados e Sidrolândia. Após a ampliação autorizada pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a planta de Sidrolândia passou a ter capacidade anual de 800 milhões de litros de etanol, além de 480 mil toneladas de DDGS, 46 mil toneladas de óleo de milho e 465 GWh de energia elétrica renovável.


Os números mostram que o impacto econômico da indústria ultrapassa a compra do milho. Coprodutos como DDGS e óleo de milho ampliam a integração com outras cadeias, incluindo pecuária e produção de ração.


“A transformação do milho dentro do próprio Estado agrega novas possibilidades de comercialização e cria demanda por serviços, logística, energia e outros insumos. Para o produtor, o efeito precisa ser analisado considerando toda a cadeia, e não somente o preço pago pelo grão”, pontua.

 

Atvos amplia presença no etanol de milho


Outro movimento relevante ocorre em Nova Alvorada do Sul. Em julho de 2026, a Atvos iniciou a construção de sua primeira planta de etanol de milho no Estado, integrada à unidade Santa Luzia.


O projeto prevê capacidade para processar 642 mil toneladas de milho por ano e produzir 273 milhões de litros de etanol, além de 183 mil toneladas de DDG e 13 mil toneladas de óleo de milho. O investimento anunciado supera R$ 1 bilhão.


A estrutura será integrada às operações já existentes de cana-de-açúcar, bioeletricidade e biometano.


Nesse caso, é importante diferenciar as fontes de energia. A planta de biometano da Atvos, também em Nova Alvorada do Sul, utiliza vinhaça e torta de filtro, resíduos da produção de cana-de-açúcar, e recebeu investimento superior a R$ 350 milhões.


A integração entre as diferentes atividades reforça, porém, uma tendência de aproveitamento múltiplo de matérias-primas e resíduos dentro dos complexos agroindustriais.


Oferta de biomassa entra no radar dos próximos projetos


Apesar da estrutura florestal consolidada, Mato Grosso do Sul ainda não possui, até o momento, um estudo público equivalente ao levantamento realizado pelo Itaú BBA para Mato Grosso que dimensione especificamente um eventual déficit ou superávit de biomassa energética diante da expansão projetada do etanol de milho.


Por isso, a evolução da oferta e da demanda deverá ser acompanhada nos próximos ciclos.


Para a Aprosoja/MS, três indicadores ganham importância: a velocidade de implantação das novas usinas, o comportamento regional dos preços da biomassa e a distância entre as áreas florestais e os polos consumidores.


“O produtor precisa acompanhar esse movimento porque a expansão do etanol de milho pode gerar efeitos em diferentes mercados ao mesmo tempo: milho, madeira, terras, arrendamento, logística e coprodutos. A informação antecipada é importante para que as decisões sejam tomadas com base na realidade econômica de cada região”, conclui Raphael.

 

Uma nova equação para o agronegócio



Com uma base florestal já estabelecida e uma indústria de biocombustíveis em expansão, Mato Grosso do Sul parte de uma condição diferente de outros estados do Centro-Oeste.


O desafio dos próximos anos será acompanhar o ritmo de crescimento da demanda por biomassa e entender como essa nova dinâmica poderá influenciar custos, preços, logística, investimentos e oportunidades dentro da cadeia produtiva.


Mais do que uma questão de disponibilidade física de madeira, o avanço do etanol de milho coloca em evidência uma nova equação econômica, na qual milho, floresta, energia e logística passam a estar cada vez mais conectados.


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