Além do diesel: como Atvos e Scania estão moldando o futuro do transporte rodoviário brasileiro

O transporte rodoviário é um dos pilares da logística nacional e, ao mesmo tempo, um dos maiores desafios estruturais da agenda de descarbonização do Brasil. Altamente dependente do diesel, o setor convive com volatilidade de custos, pressão ambiental crescente e limitações históricas de integração energética. Diante desse cenário, soluções que conciliem eficiência operacional, segurança energética e redução efetiva de emissões tornaram-se estratégicas, especialmente para operações de grande escala.



É nesse contexto que se insere a parceria firmada entre Atvos e Scania Brasil para a operação de uma frota logística movida a biometano. Mais do que a adoção de uma nova tecnologia veicular, o acordo revela uma mudança de paradigma: o transporte pesado passa a ser tratado como parte integrada da matriz energética corporativa, e não apenas como um centro de custos subordinado à dinâmica dos combustíveis fósseis.

Simone Montagna, presidente da Scania Brasil, e Bruno Serapião, CEO da Atvos, durante assinatura de parceria



Formalizado em São Paulo, em 2026, o acordo prevê a incorporação de caminhões Scania movidos a biometano às operações logísticas da Atvos. 

A iniciativa integra produção própria de biocombustível e consumo direto na frota, com foco simultâneo em eficiência operacional, redução de emissões e previsibilidade de custos no médio e longo prazo.


No centro da estratégia está a verticalização energética. Ao produzir e utilizar o próprio biometano, a Atvos transforma resíduos da cadeia sucroenergética em um ativo logístico estratégico, reduzindo a dependência do diesel e mitigando a exposição à volatilidade dos preços internacionais de combustíveis fósseis. Esse modelo reposiciona a logística como elemento-chave da estratégia energética e financeira da companhia.


Do ponto de vista técnico, o biometano apresenta desempenho equivalente ao diesel em aplicações de transporte pesado. Na operação da Atvos, cada metro cúbico do combustível renovável substitui, em média, entre 0,75 e 0,9 litro de diesel, mantendo potência, torque e capacidade de tração compatíveis com as exigências da operação canavieira. Estudos internos indicam competitividade no custo por quilômetro rodado, especialmente em frotas cativas e rotas previsíveis.


O projeto ocorre em paralelo à construção da primeira fábrica de biometano da Atvos, localizada em Nova Alvorada do Sul, no Mato Grosso do Sul. A unidade ocupará uma área de 150 mil metros quadrados e terá capacidade instalada de 28 milhões de metros cúbicos de biometano. A planta deverá abastecer parte significativa da frota própria, reforçando a estratégia de autossuficiência energética e integração entre produção de biocombustíveis e consumo logístico.



Os caminhões adquiridos serão utilizados nas unidades Conquista do Pontal, no oeste paulista, e nas unidades Eldorado e Santa Luzia, nos municípios de Rio Brilhante e Nova Alvorada do Sul (MS). A frota será empregada principalmente no transporte de cana-de-açúcar, contribuindo para a reorganização, padronização e maior previsibilidade da logística agrícola da companhia.


Sob a ótica operacional, os ganhos vão além da matriz energética. Motores a gás apresentam menor carbonização interna e menor desgaste de componentes, o que reduz a necessidade de manutenção corretiva, diminui paradas não programadas e aumenta a disponibilidade da frota. Em operações agrícolas intensivas, nas quais o tempo de máquina é crítico, esses fatores se traduzem diretamente em aumento de produtividade e confiabilidade logística.


Os benefícios ambientais são igualmente relevantes. Caminhões movidos a biometano podem reduzir em até 90% as emissões de gases de efeito estufa em comparação aos modelos a diesel, além de diminuir significativamente a emissão de material particulado e os níveis de ruído. Esses aspectos ampliam a aceitação social das operações e atendem às crescentes exigências ambientais impostas por clientes, investidores e órgãos reguladores.



A parceria com a Scania é resultado de um processo iniciado em 2024, quando a Atvos incorporou o primeiro caminhão a gás à sua frota. O desempenho observado na fase inicial levou à ampliação do projeto, agora com a aquisição de uma frota mista, configurada especificamente para atender às exigências da operação canavieira. O fornecimento inclui veículos, pacotes de manutenção, garantia estendida e serviços dedicados, com suporte da rede de concessionárias nos estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul.


Para a Scania, o projeto consolida o biometano como uma solução tecnicamente madura, escalável e imediatamente aplicável ao transporte pesado brasileiro. Diferentemente de tecnologias ainda dependentes de infraestrutura complexa ou em estágio experimental, o biometano permite avanço no curto prazo, utilizando plataformas industriais consolidadas e reduzindo riscos tecnológicos.


No plano macroeconômico, o acordo Atvos–Scania antecipa um possível caminho para a transição energética do transporte rodoviário no Brasil. O país reúne condições estruturais únicas para o avanço do biometano, como forte base agroindustrial, abundância de resíduos orgânicos, capacidade de geração descentralizada e logística regionalizada. A adoção em frotas cativas cria demanda estável, viabiliza investimentos industriais e impulsiona economias regionais, especialmente em estados como Mato Grosso do Sul.


Entretanto, uma leitura crítica revela desafios importantes. Modelos como o adotado pela Atvos são, no curto prazo, mais acessíveis a grandes grupos com escala, previsibilidade logística e capacidade de investimento. Isso tende a ampliar a distância entre empresas capazes de internalizar a transição energética e aquelas ainda dependentes do diesel. O desafio do setor e do poder público será criar condições regulatórias, fiscais e de financiamento que permitam a disseminação desse modelo para além das grandes corporações.


Ao optar pelo biometano, Atvos e Scania fazem uma escolha pragmática, distante de discursos tecnológicos abstratos. Trata-se de uma solução disponível, economicamente defensável e alinhada às exigências de uma agenda ESG baseada em resultados concretos, não apenas em intenções. Essa decisão indica que a transição energética do transporte brasileiro tende a ocorrer de forma híbrida, gradual e orientada por eficiência operacional.


Em última instância, o acordo desafia a classe dirigente a rever o papel estratégico do transporte dentro das organizações. Energia, logística, sustentabilidade e governança deixam de ser áreas isoladas e passam a compor um sistema integrado de decisões. Empresas que compreenderem essa convergência estarão mais preparadas para um ambiente de maior pressão regulatória, escassez relativa de recursos e transformação estrutural da matriz energética.


Mais do que um acordo comercial, a parceria entre Atvos e Scania funciona como um laboratório em escala real do futuro do transporte rodoviário brasileiro. Seus resultados — positivos ou não — tendem a influenciar decisões estratégicas em toda a cadeia produtiva. 

 






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