Fiesp alerta para desafios tecnológicos na descarbonização da indústria brasileira após 2035
A indústria brasileira possui condições técnicas para cumprir as metas de redução de emissões de gases de efeito estufa (GEE) previstas pelo governo federal até 2035. No entanto, a continuidade desse processo rumo à neutralidade climática exigirá investimentos robustos, políticas públicas estruturadas e o desenvolvimento de tecnologias ainda indisponíveis em larga escala no país. Essa é a principal conclusão do estudo inédito "Trajetória de Emissões de GEE da Indústria Brasileira", elaborado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
O levantamento analisa os setores de siderurgia, cimento, química, papel e celulose, vidro e alumínio, considerados estratégicos para a economia nacional e altamente intensivos em energia. O objetivo é avaliar a capacidade da indústria de atender aos compromissos climáticos assumidos pelo Brasil sem comprometer sua competitividade e seu potencial de crescimento.
Segundo o estudo, o setor industrial consegue permanecer dentro do orçamento de carbono estabelecido pelo Plano Clima até 2035. Entretanto, o cenário se torna mais desafiador a partir de 2040, quando a diferença entre as metas governamentais e a capacidade real de redução das emissões se amplia significativamente.
Dois cenários para a indústria brasileira
O relatório apresenta dois cenários prospectivos para o setor industrial.
No cenário de referência, que considera a manutenção das tendências atuais de crescimento econômico e ganhos graduais de eficiência energética, as emissões industriais alcançariam 240 milhões de toneladas de CO₂ equivalente (MtCO₂e) em 2035.
Já no cenário condicionado, que pressupõe a implementação de políticas públicas robustas, acesso facilitado a financiamento e estímulos à inovação tecnológica, as emissões seriam reduzidas para 203 MtCO₂e no mesmo período, representando uma redução de aproximadamente 15% em relação ao cenário de referência.
Apesar do avanço expressivo, o estudo aponta que essa redução ainda não será suficiente para atender às metas mais ambiciosas previstas para 2050.
Tecnologias ainda são o principal desafio
O principal alerta do documento está relacionado ao período posterior a 2035. Enquanto o Plano Clima sinaliza que o orçamento de carbono para a indústria em 2050 deverá ficar entre 159 e 171 MtCO₂e, o cenário condicionado da Fiesp projeta emissões de 252 MtCO₂e.
A diferença próxima de 100 MtCO₂e evidencia a necessidade de adoção de tecnologias disruptivas que atualmente apresentam limitações técnicas, econômicas ou de escala.
Entre as soluções consideradas fundamentais para o avanço da descarbonização estão o hidrogênio verde, a captura e armazenamento de carbono (CCS) e a eletrificação de processos térmicos de alta temperatura. Contudo, essas tecnologias ainda enfrentam desafios relacionados a custos, infraestrutura e maturidade tecnológica.
Setores energointensivos terão papel decisivo
A análise setorial mostra que a siderurgia concentra o maior potencial de redução de emissões até 2035. O setor apresenta uma diferença de 14 MtCO₂e entre os cenários analisados, mas depende da ampliação da oferta de gás natural, sucata metálica, carvão vegetal sustentável e mecanismos de precificação de carbono.
Na indústria química, as metas podem ser alcançadas por meio da eficiência energética, uso de biomassa, eletrificação de processos e ampliação da reciclagem química e mecânica. O gás natural aparece como combustível de transição estratégico e matéria-prima essencial para manter a competitividade do segmento.
O setor cimenteiro aposta principalmente na redução do uso de clínquer, na utilização de combustíveis alternativos derivados de resíduos e biomassa e em remoções biogênicas associadas às Soluções Baseadas na Natureza (SbN).
Já a indústria de papel e celulose mantém uma trajetória considerada positiva, apoiada no uso predominante de biomassa renovável e em práticas sustentáveis de manejo florestal. O segmento é visto como um importante aliado na geração de remoções biogênicas capazes de compensar emissões residuais.
No alumínio, a projeção aponta redução das emissões de 8,3 MtCO₂e em 2030 para 7,2 MtCO₂e em 2035, impulsionada pela eletrificação dos processos produtivos e pelo elevado uso de energia renovável, um diferencial competitivo do Brasil.
Por sua vez, o setor vidreiro enfrenta limitações técnicas devido às elevadas temperaturas exigidas em seus processos. As estratégias de descarbonização incluem a eletrificação gradual dos fornos, aumento da reciclagem de vidro e, futuramente, a adoção de tecnologias de captura de carbono.
Reindustrialização verde exige estratégia de longo prazo
A Fiesp defende que a agenda climática seja integrada à política industrial nacional, criando condições para que a transição energética fortaleça a competitividade da indústria brasileira e estimule novos investimentos.
O estudo destaca a importância de previsibilidade regulatória, mecanismos de financiamento e incentivos à inovação tecnológica para viabilizar projetos de baixo carbono sem comprometer a produtividade do setor.
Além disso, a entidade ressalta que o Brasil possui vantagens competitivas únicas, como uma matriz elétrica majoritariamente renovável, ampla biodiversidade e forte capacidade agrícola, fatores que podem contribuir para a geração de remoções biogênicas e acelerar a transição para uma economia de baixo carbono.
Segundo Fábio Brasiliano, diretor titular do Departamento de Meio Ambiente da Fiesp, o país reúne condições favoráveis para liderar esse processo, desde que a transição seja acompanhada por políticas industriais consistentes.
"O Brasil tem uma oportunidade com sua matriz elétrica renovável, sua biodiversidade e seu potencial agrícola, mas a transição precisa ser coordenada com políticas industriais que garantam a soberania tecnológica e a segurança econômica do país", afirma.
Para o dirigente, a combinação entre planejamento estratégico, inovação e articulação institucional pode transformar os desafios climáticos em oportunidades de crescimento econômico e fortalecimento da indústria nacional.
"Com planejamento e articulação institucional, a indústria brasileira pode converter os desafios climáticos em alavancas de crescimento, demonstrando que é possível promover a reindustrialização e o desenvolvimento sustentável de forma simultânea", conclui.
Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp)
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