Portos brasileiros aceleram investimentos para atender avanço das montadoras chinesas e dos veículos eletrificados
O crescimento acelerado das montadoras chinesas no mercado brasileiro está transformando a logística automotiva nacional e consolidando os portos especializados em operações roll-on/roll-off (Ro-Ro) como peças estratégicas para a cadeia de importação de veículos. O aumento das chegadas de automóveis elétricos e híbridos tem impulsionado investimentos em infraestrutura, expansão de pátios, modernização operacional e adoção de protocolos específicos de segurança.
Mais do que um aumento no volume de veículos desembarcados, o setor vive uma reorganização logística. Fabricantes chinesas ampliam suas operações no Brasil e passam a exigir portos com maior capacidade, agilidade e previsibilidade para atender embarques cada vez mais robustos.
Paranaguá lidera crescimento nas importações
O grande destaque desse novo cenário é o Porto de Paranaguá, que vem registrando uma das maiores expansões do segmento automotivo no país.
Entre janeiro e maio de 2026, o terminal movimentou 67,6 mil veículos, crescimento de 63% em comparação ao mesmo período de 2025. Com esse desempenho, Paranaguá alcançou 14,7% de participação nas operações brasileiras de comércio exterior de veículos, assumindo a vice-liderança nacional e ultrapassando o Porto de Santos no ranking das importações.
Outro marco importante ocorreu em maio, quando o porto recebeu uma das maiores operações de desembarque de veículos elétricos já realizadas no Brasil, com mais de 5,7 mil unidades descarregadas em uma única escala.
Segundo Fábio Mattos, gerente comercial da TCP (Terminal de Contêineres de Paranaguá), o avanço está diretamente ligado ao crescimento das importações de veículos eletrificados provenientes da China.
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| Fábio Mattos, gerente comercial da TCP (Terminal de Contêineres de Paranaguá) |
"O aumento da movimentação de veículos em Paranaguá está diretamente relacionado ao avanço das importações de veículos elétricos, especialmente provenientes da China", destaca o executivo.
Infraestrutura entra em nova fase de expansão
Apesar da evolução registrada nos últimos anos, o Brasil ainda está distante dos principais polos mundiais da logística automotiva.
Portos como Zeebrugge, na Bélgica, e Bremerhaven, na Alemanha, movimentam mais de um milhão de veículos por ano. Em comparação, o Terminal de Veículos (TEV), operado pela Santos Brasil, possui capacidade anual para aproximadamente 300 mil unidades.
Mesmo assim, operadores avaliam que uma nova rodada de investimentos tornou-se inevitável.
A expectativa é de ampliação das áreas destinadas ao armazenamento de veículos, melhoria dos acessos internos, modernização dos sistemas operacionais e expansão da capacidade para acompanhar o crescimento contínuo das importações.
Atualmente, o TEV responde por cerca de 33,5% do mercado brasileiro e concentra aproximadamente 95% das operações automotivas realizadas no Porto de Santos.
No Nordeste, o Porto de Suape também busca ampliar sua relevância. Após movimentar quase 84 mil veículos em 2025, o complexo já registrou outras 29 mil unidades entre janeiro e maio deste ano. A estratégia inclui expansão física do terminal e atração de novos investimentos privados voltados às operações automotivas.
Veículos elétricos exigem novos protocolos de segurança
A eletrificação da frota trouxe novos desafios para os operadores portuários.
Embora os automóveis elétricos utilizem o mesmo sistema Ro-Ro empregado pelos veículos convencionais, as baterias de íons de lítio exigem cuidados adicionais para minimizar riscos relacionados à fuga térmica e eventuais incêndios.
Diante desse cenário, os portos brasileiros vêm adotando protocolos específicos que incluem monitoramento constante, espaçamento adequado entre veículos, planos de contingência, equipamentos especializados e treinamento contínuo das equipes responsáveis pelas operações de embarque e desembarque.
Outro desafio operacional está no próprio processo de movimentação dos veículos.
Ao contrário das cargas conteinerizadas, cada automóvel precisa ser conduzido individualmente pelos operadores entre os pátios e os diversos conveses das embarcações. Como se trata de produtos de elevado valor agregado, qualquer dano representa prejuízos significativos tanto para as montadoras quanto para os operadores logísticos, tornando a qualificação da mão de obra um importante diferencial competitivo.
Incentivos fiscais alteram rotas logísticas
Além da infraestrutura, fatores tributários também influenciam a escolha dos portos utilizados pelas montadoras.
Estados como Espírito Santo e Santa Catarina oferecem incentivos fiscais que aumentam sua competitividade nas operações de importação, enquanto São Paulo perdeu parte de sua atratividade em função da incidência do ICMS sobre veículos importados.
Essa disputa fiscal tem provocado mudanças importantes nas rotas logísticas adotadas pelas fabricantes e pelos operadores internacionais.
Navios próprios fortalecem estratégia das montadoras chinesas
Outro movimento que vem sendo acompanhado de perto pelo setor é a utilização de navios próprios ou afretados por fabricantes chinesas, como a BYD.
Essa estratégia amplia a oferta de espaço para transporte, aumenta a frequência das escalas marítimas, reduz custos logísticos e oferece maior previsibilidade às operações de importação, beneficiando toda a cadeia automotiva.
Ao mesmo tempo, os portos já se preparam para uma nova etapa da expansão dessas fabricantes no Brasil.
Com o avanço dos sistemas CKD (Completely Knocked Down) e SKD (Semi Knocked Down), nos quais os veículos chegam desmontados ou parcialmente desmontados para montagem nacional, deverá crescer significativamente a movimentação de autopeças em contêineres.
Esse novo modelo reforça a integração entre os terminais especializados em operações Ro-Ro e os terminais conteinerizados, ampliando a importância estratégica dos complexos portuários brasileiros.
Portos assumem papel estratégico na nova indústria automotiva
O fortalecimento das montadoras chinesas no Brasil está redesenhando a logística nacional e elevando os portos a um novo patamar dentro da cadeia automotiva.
Mais do que pontos de entrada e saída de veículos, os complexos portuários passam a desempenhar papel decisivo na competitividade do setor, oferecendo capacidade operacional, áreas para expansão, eficiência logística, segurança e integração multimodal.
Com a continuidade da eletrificação da frota e a ampliação da produção nacional por meio de modelos CKD e SKD, especialistas avaliam que os investimentos em infraestrutura portuária serão fundamentais para sustentar a próxima fase de crescimento da indústria automotiva brasileira.
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